|
PENSAMENTOS SOBRE PRECONCEITOS, TERCEIRA IDADE, ADOÇÃO E OUTROS QUE TAIS Lidia Natalia Dobrianskyj Weber
"Nos olhos do jovem arde a chama, nos do velho brilha a luz." Vitor Hugo (1801 -1885)
Quando o Sr. Decebal Andrei telefonou e pediu para que eu escrevesse um pequeno artigo sobre "terceira idade, adoção e discriminação" para ser incluído em seu livro, eu me senti, obviamente, lisonjeada. Nossa vaidade sempre desperta quando imaginamos que podemos ser úteis para alguém. Depois que o efêmero momento de vaidade que me fez aceitar o convite esvaneceu-se, um sentimento de incapacidade tomou seu lugar. O que teria eu a dizer a um homem que, na chamada terceira idade, adotou sozinho um adolescente? Falar para ele, ou num livro dele, sobre adoção, discriminação, terceira idade... pareceu-me no mínimo óbvio demais. Afinal, ele é o protótipo dessas questões! Ele é que vivencia e quem sabe fenomenologicamente sobre seus aspectos mais precisos, suas dificuldades, suas alegrias. O que poderia eu, dentro da minha pobre ciência, contribuir?
Pensei que essa talvez fosse a grande questão da ciência: conseguir apreender objetivamente um fenômeno, sem deixar-se influenciar por ele. Mas, se não houver influência como compreendê-lo verdadeiramente? Após a física quântica, sabemos que nem mesmo as denominadas ciência exatas estão imunes da influência do observador sobre o objeto observado... e vice-versa? Como conseguirei, então, apreender a subjetividade nos olhos do outro, se eu, enquanto cientista, não possuo um receptor para a subjetividade? E preciso explicar o mundo, ou posso simplesmente senti-lo? Isso é verdadeiramente compreender ou apreender? Qual é a verdade, a sentida ou a compreendida?
Ah, por que fui falar de verdade?.... Será que tenho de saber a essência da verdade e ter em minha mente o que caracteriza a verdade como tal? Preciso me preocupar com a verdade real como diz Heidegger ou com a verdade do senso comum, mais prática? É mais importante saber o que leva as pessoas a discriminarem o diferente ou o quê realmente fazer para minimizar as discriminações e preconceitos no cotidiano? Devo filosofar ou ser prática? Enquanto o senso comum tem a necessidade do prático e do útil, a filosofia reflete. No meu cotidiano eu consigo pegar uma bola que meu filho Erik joga para mim sem precisar fazer cálculos parabólicos...
Nessa época pós-moderna, somente temos certeza que a verdade não é mais uma só. Somente sabemos que nada é permanente, exceto a mudança. Somente sabemos que a verdade deve ser intersubjetiva. O outro, o meu semelhante também deve ter capacidade de entendê-la, senão, de que vale uma verdade que seja só minha?
Desta forma, imagino que também é preciso refletir. É necessário fazer um pouco de filosofia. Senão corre-se o risco de permanecer patinando sobre conceitos arcaicos e dogmáticos sem prestar atenção à realidade viva e dinâmica. Como disse John Kenneth Galbraith, "o pensamento convencional serve para proteger-nos da dolorosa tarefa de pensar".
Se vemos um senhor na "terceira idade" adotar um adolescente, o senso comum, o pensamento tradicional pode nos levar a pensar: "Nossa, que coragem!". Ou, "Que bobagem, isso nunca vai dar certo!". Ou ainda, "Duas pessoas em idades difíceis, que complicação...". Geralmente nós só aceitamos o real se aquilo aconteceu em nossa vida. Carregamos em nosso repertório comportamental uma série de conceitos e preconceitos aprendidos culturalmente e, se não refletirmos sobre eles, seremos somente capazes de ver o mundo através de nossas "percepções discriminativas". Na verdade, nossa percepção do mundo, nosso "conhecimento" do mundo é o nosso comportamento em relação ao mundo. E nunca deve ser confundido com o mundo propriamente dito ou com outro comportamento em relação ao mundo, ou ainda como comportamento de outros em relação ao mundo.
Parece que estou tentando complicar algo que é muito simples? Talvez esteja sendo influenciada pelo clima de um sábado de chuva..., no entanto, quero dizer, no geral, que todos os preconceitos são aprendidos socialmente e que precisamos refletir juntos para conseguir desaprendê-los. Quero dizer, no particular, que quando alguém tem a coragem de passar por cima dos preconceitos e concepções vigentes, é porque conseguir refletir sobre eles e dar um passo além. E quebrar preconceitos é sempre um grande passo! Decebal Andrei, ao adotar um adolescente quebrou uma regra vigente. Errei. Não quebrou apenas uma regra, mas vários pensamentos arraigados em nossa cultura: o preconceito da adoção; o medo da adolescência; o preconceito da velhice ; o preconceito da adoção tardia; o preconceito da adoção tardia na terceira idade, ou da adoção bi-tardia; o preconceito da adoção monoparental... Nossa, que coragem, pensei eu também, depois de listar os preconceitos.... Sim, o cientista também é humano, também luta para enfrentar seus próprios preconceitos coletados em sua existência.... Mas, ao tentar fazer um pouco de filosofia-de-fim-de-semana, pensei que a coragem de Decebal, ou a coragem em geral, não é simplesmente a ausência do medo; a coragem é antes de tudo, a capacidade de fazer alguma coisa apesar do medo...
Fazer uma ação que enfrente preconceitos e discriminações é tornar-se um ponto de referência. Ponto de referência serve tanto para os elogios como para as críticas... É claro que os "mais refletidos" tendem somente a elogiar. Elogiar sempre a quebra de preconceitos porque o mundo move-se a partir das diferenças e da tolerância com o outro. E talvez não seja não nova a idéia de que os "mais velhos" têm muitas coisas a repartir e a ensinar para os mais novos.... é claro que não! Quem nunca teve uma vovó que contasse suas histórias e ajudasse a refletir o mundo? Se não teve, ou não valorizou esta experiência, veja o que é possível fazer...
Recentemente tive conhecimento de um projeto chamado Reminiscências, que reúne estudantes e idosos da comunidade de Taguatinga. Além de bate-papo e amizades, o programa traz mais saúde para a terceira idade. "O valor da experiência de vida tem sido bem aproveitado pelos alunos do Centro Educacional de Taguatinga. Uma vez por semana, alunos de 1º e 2º graus têm um encontro marcado com os idosos da vizinhança. Pioneiros na cidade, eles chegaram para a construção da nova capital no final dos anos 50, início dos anos 60. Durante uma hora, conversam sobre sua infância, sua vinda para Brasília, seus namoros e respondem às perguntas dos estudantes. Ao final da sessão, os alunos fazem um relatório escrito ou um desenho sobre o tema da conversa. Assim funciona há quatro anos, o projeto Reminiscências - Integrando Gerações. A idéia é simples e barata e traz resultados fantásticos, tanto para a formação dos meninos quanto para a saúde dos idosos. Os jovens aprendem a respeitar e a compreender o universo dos mais velhos e colocam um ponto final no preconceito contra a velhice".
Como falei há pouco, lidar com preconceitos é acabar com a intolerância. Para lembrar o que é a tolerância, vou colocar aqui a Declaração de princípios sobre a Tolerância, aprovada pela Unesco em 1995:
A tolerância é o respeito, a aceitação e apreço da riqueza e da diversidade das culturas de nosso mundo, de nossos modos de expressão e de nossas maneiras de exprimir nossa qualidade de seres humanos. É fomentada pelo conhecimento, a abertura de espírito, a comunicação e a liberdade de pensamento, de consciência e de crença. A tolerância é a harmonia na diferença. Não só é um dever de ordem ética; é igualmente uma necessidade política e jurídica. A tolerância é uma virtude que torna a paz possível e contribui para substituir uma cultura de guerra por uma cultura de paz. A tolerância não é concessão, condescendência, indulgência. A tolerância é, antes de tudo, uma atitude ativa fundada no reconhecimento dos direitos universais da pessoa humana e das liberdades fundamentais do outro. Em nenhum caso a tolerância poderia ser invocada para justificar lesões a esses valores fundamentais. A tolerância deve ser praticada pelos indivíduos, pelos grupos e pelo Estado. A tolerância é o sustentáculo dos direitos humanos, do pluralismo (inclusive o pluralismo cultural), da democracia e do Estado de Direito. Implica a rejeição do dogmatismo e do absolutismo e fortalece as normas enunciadas nos instrumentos internacionais relativos aos direitos humanos.
O Sábado está chegando ao fim e eu sinto que não acrescentei muito a questão que Decebal Andrei me apresentou. Com um pouco de auto-indulgência, posso pensar que pelo menos refleti um pouco sobre a questão e sobre meus próprios preconceitos. Talvez outros possam beneficiar-se dos meus pensamentos. Se não puderam aproveitar nada, se não tive grandes idéias, então devo ao menos e de forma egoísta, agradecer ao Decebal pela minha própria aprendizagem neste sábado...
Mas, antes de terminar, sinto que falta falar de mais alguma coisa. Ao falar de quebra de preconceitos, de tolerância, de terceira idade, de adoção, devo falar também de afeto, de carinho, de amor. Sim!, era isso que faltava nesse meu discurso meio enredado. Posso gritar eureca e, como Arquimedes sair correndo pelas ruas curitibanas cheias de chuva! O amor sempre estará por trás desses atos nobres. Resta enfatizar que transformar alguém em filho e transformar alguém em pai depende de doses intensas de amor. E, saber amar alguém, como muito já foi dito, não depende de laços de sangue, mas de um caminho diário de construção. É um trabalho quase braçal: construir os fundamentos da relação, enfrentar tristezas, decepções, vibrar com sorrisos e, assentar tijolo por tijolo, até chegar a ser um edifício sólido, alto, que "encontrará a luz das estrelas"... De maneira simbólica, lembrei uma parte da canção "No fundo do coração"(1) que minha filha Tatiana cantou para mim no dia das mães e que reflete o dia-a-dia de uma verdadeira relação de amor (2):
"Se por acaso alguma nuvem encobrir teu céu Eu vou buscar um arco-íris, aquarela e pincel Pintar sorrisos nas palavras que você disser Te dar magia e alegria É meu jeito de dizer te amo No fundo do meu coração"
(1) Letra de D. Hayes e D. Jones; versão em português de Paulo Sérgio Valle; cantada por Sandy e Júnior.(2) Talvez não ter preconceitos seja falar, em um mesmo texto, de Heidegger, Vitor Hugo e Sandy e Júnior.... Talvez...
* Este texto está publicado no livro REENCONTRO COM A ESPERANÇA de Decebal Andrei, Londrina, 1999. |
|
Universidade Federal do Paraná Departamento de Psicologia - Profª Drª Lidia Natalia Dobrianskyj Weber Praça Santos Andrade, 50 - 1º andar Fone: (41) 310-2669 Fax: (41) 310-2625 - 80060-000 Curitiba-PR
|