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REVISTA VEJA 02
de junho de 2004 – edição 1856
Entrevista:
Lidia Weber
O que
falta é afeto
Psicóloga diz que educar dá trabalho e que os
pais fazem mal aos filhos com punições sem lógica e às vezes até cruéis
Daniela Pinheiro
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"Tem-se a impressão
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de que os pais são
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tolerantes demais
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com os filhos.
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Descobri o contrário"
A maioria
dos pais se martiriza com questionamentos intermináveis sobre como criar os
filhos. Por mais que evitem, estão sempre esquadrinhando seu comportamento.
Estariam sendo muito duros? Muito permissivos? Muito autoritários? Como agir em
determinada situação? Para a psicóloga Lidia Weber, de 46 anos, o tema é uma
fonte inesgotável de indagações das quais já se consolidaram, felizmente,
algumas certezas. Autora de seis livros sobre relações intrafamiliares,
coordenadora de um programa de dinâmica familiar na Universidade Federal do
Paraná, ela costuma aconselhar seus alunos e os pais que a procuram da seguinte
maneira: "Siga sua consciência, obedeça a seus valores". É essa a maneira de
educar. Para ela, o sucesso na criação passa pelo fortalecimento da auto-estima
das crianças. E isso se faz, ao contrário do que diz o senso comum, mais com
elogios do que com punições. "Muitos pais não sabem elogiar. Têm vergonha", diz.
Casada, mãe de três filhos entre 10 e 16 anos, Lidia – que nunca apanhou dos
pais e nunca bateu nos filhos – é uma entusiasta do castigo e uma inimiga da
palmada, que ela considera dispensável mesmo nas situações de limites.
Veja –
Por que os pais
parecem tão assustados com a tarefa de educar os filhos?
Lidia – Acho que há duas razões principais. Primeiro, pela realidade
mesmo. Somos todo o tempo bombardeados com notícias sobre violência. Isso dá
muito medo. Outra razão eu acho que se deve ao que chamo de quebra da
solidariedade entre os adultos. Antes, tínhamos a sensação – e era verdade – de
que poderíamos contar com outras pessoas para cuidar do bem-estar de nossos
filhos. Os vizinhos, os parentes, os professores faziam parte dessa rede de
segurança. Hoje isso não existe mais. É cada um por si. O perigo pode morar ao
lado. Esse medo do "outro" é a expressão mais tangível da paranóia dos pais.
Veja –
Qual a melhor maneira de os pais lidarem com esses medos?
Lidia – Acho fundamental a retomada da rede de segurança. Contar com
os avós, com amigos próximos. Voltar a aprender a confiar. Isso conforta e dá
segurança. Os pais também têm de se focar. Gasta-se muito tempo com preocupações
menores. Se o filho não comeu verdura, se o outro deixou os tênis espalhados
pelo quarto, se a filha saiu sem casaco, e por aí vai. Isso não quer dizer nada.
Só provoca angústia e insegurança nos pais e nos filhos. Antes de fazer tantas
ressalvas, questione-se: "Isso realmente é crucial?" ou "Que lição meu filho vai
levar disso?". Às vezes, a obsessão com a segurança pode ser mais danosa que os
próprios riscos.
Veja –
Livros de auto-ajuda ou de como criar os filhos vendem como nunca. Eles são
úteis?
Lidia – Depende. A maioria dos pais ignora a fase de desenvolvimento dos
filhos. Se soubessem como são os comportamentos típicos de cada idade, educar
ficaria mais fácil. Por exemplo: é normal um menino de 6 anos querer comer com a
mão. É normal chegar à adolescência e, durante uma briga, dizer que odeia os
pais. Ciente disso, fica mais fácil gerenciar, lidar com essas questões. Ao
contrário, tudo pode se tornar um drama. A mãe pensa: "Ah, vou deixar minha
filha fazer o que ela quiser, porque eu não agüento ouvir isso". Os livros são
úteis para isso. Para informar como é uma criança, um adolescente. Mas livros
que falam como fazer seu filho ficar rico ou virar um gênio não podem ser
levados a sério.
Veja –
Por quê?
Lidia – Porque não existe um padrão, um modelo em que se possa enquadrar
todo mundo. Esses livros servem para aliviar a culpa de alguns pais. Eles acham
que lendo um manual vão aprender a ser perfeitos. Os pais sentem muita culpa
porque passam muito tempo longe dos filhos. Mas é uma realidade hoje. É preciso
ter noção de que seu filho não vai virar um desajustado porque não está 24 horas
a seu lado. Nem ele nem os amiguinhos ficam tanto com os pais. Dito assim,
parece óbvio, mas os pais devem educar os filhos de acordo com seus valores
pessoais, não pelo valor dos autores de livros. Têm de entender que só eles são
capazes de tomar decisões e passar valores para suas crianças.
Veja –
A senhora
costuma dizer que não há pais permissivos, há pais negligentes e com pouco
afeto. Por quê?
Lidia – Fizemos várias pesquisas na Universidade Federal do Paraná com
cerca de 1 500 crianças de escolas públicas e particulares. Hoje, tem-se a
impressão de que a maioria dos pais é tolerante demais. Descobrimos o contrário.
Há muito pouco afeto em jogo.
Veja –
Qual o maior
dilema dos pais?
Lidia – Sem dúvida, é a questão de bater ou não bater. Porque a maioria
apanhou, e quem apanhou acha normal bater. A outra dificuldade é sobre questões
cotidianas, que a gente chama de supervisão inadequada, excessiva. Os pais estão
estressados, têm pouca paciência. É muito mais eficiente dizer: "Olhe, eu vou
chamar você uma vez para almoçar. Se não vier agora, só vai comer na próxima
refeição".
Veja –
A senhora
coloca a palmadinha de leve no mesmo patamar de uma surra? Não é exagero?
Lidia – O princípio é o mesmo: eu uso o poder e a força para obrigar você
a parar de fazer alguma coisa. Em 99% dos casos a palmada é usada quando os pais
estão com raiva. Isso aumenta o risco de a punição se transformar em maus-tratos
porque você está descontrolado. O único resultado positivo da palmada é que a
criança pára de perturbar na hora. E esse é um dos aspectos perversos do tapa:
por ter efeito imediato, os pais o utilizam com muito mais facilidade e
freqüência. Há um estudo da professora Elizabeth Gershoff, da Universidade
Columbia, provando o mal da palmada a longo prazo. Há dez aspectos negativos
observados para cada um positivo. Mulheres que apanharam dos pais na infância
costumam encarar com mais naturalidade a violência do marido, por exemplo. Há
uma ligação estreita com o aumento de agressividade, de comportamento
delinqüente e anti-social.
Veja –
Estamos falando
de uma palmadinha...
Lidia –
Ainda assim. No estudo de
Gershoff é feita essa diferença. São várias análises que levam em conta o que se
chama de punição normativa e o abuso físico de fato. Então, alguém pode dizer:
"Eu apanhei dos meus pais e não sou anti-social". Tudo bem. Mas isso não prova
muita coisa. A pesquisa é mais esclarecedora nesses casos porque reflete o que
ocorre com a maioria das pessoas. É claro que, se você leva um tapinha mas é
estimulado em casa a ter uma boa auto-estima, não vai virar um marginal. Se os
pais forem muito competentes e usam uma palmadinha de vez em quando, isso não
causa prejuízo. Mas eu pergunto: se são tão competentes, por que precisam bater?
Veja –
E o castigo?
Lidia – O castigo é muito eficiente. A retirada de privilégios é uma
conseqüência lógica: "Você chegou às 11 da noite, era para chegar às 10, então
da próxima vez vai chegar às 9". O filho precisa de regras, pois a vida adulta é
cheia delas. Com adolescente, saber negociar também é vital. Outro dia, minha
filha foi advertida na escola porque não fez a tarefa. Ela mesma veio até mim e
disse: "Então, vamos ver o castigo que eu posso ter. Vai ter a festa da fulana,
então eu não vou à festa". Causa e conseqüência. Isso vem de berço. É uma
doutrina que se ensina desde pequeno.
Veja –
Qual o grande erro dos pais na hora de castigar?
Lidia – É quando não conseguem estabelecer regras coerentes de acordo com
a idade, e consistentes de acordo com sua conduta. Você não pode dar um castigo
conforme o seu humor. Por exemplo, aquela mãe que, depois que uma criança
aprontou algo, começa a berrar: "Vai ficar um mês sem usar a internet!" ou "Vai
ficar uma semana sem sair de casa!". É quase impossível manter isso. Então, só
imponha castigos que você pode cumprir. Do contrário, seu filho vai perder a
confiança e o respeito por você.
Veja –
Há técnicas
eficientes de castigo para cada idade?
Lidia – Com crianças menores, há técnicas eficientes como o time out.
É o famoso ficar no quarto trancado ou sentado sem levantar ou falar por alguns
minutos. É preciso ter muito controle porque a criança pode chorar e berrar e
você tem de se manter firme. Crianças nessa idade querem muita atenção. É nesses
poucos minutos que elas vão sentir a pena. Calcule um minuto por ano. Três anos,
três minutos de castigo. O que conta é que haja conseqüências imediatas.
Veja –
E se você está
no shopping com seu filho de 6 anos, ele se joga no chão, começa a berrar feito
louco porque quer um tênis de 300 reais? Como falar "Vamos conversar, meu filho"
com o menino dando um escândalo?
Lidia – Você não vai falar isso na hora. Até porque vai estar com raiva
também. Segure-o pelo braço e leve-o embora dali. Quando ele se acalmar, mostre
as conseqüências da má atitude dele. Criança não nasce chata. Ela fica chata por
causa dos pais. Se a criança faz birra e os pais cedem para se ver livres do
escândalo, eles estão recompensando esse comportamento. Aí vira aquela criança
insuportável, da qual os pais mesmos vão se afastar e dizer: "O gênio dela é
ruim". Não existe isso.
Veja –
Os pais têm
preguiça de ensinar?
Lidia – Eles têm de argumentar, o que é mais complicado. Dá muito mais
trabalho do que simplesmente dizer não. Se seu filho quer um tênis de 300 reais
"porque todos os amigos têm" e você não vai comprar, explique as razões. Diga
que não é com um tênis que ele vai se tornar alguma coisa ou que é contra seus
princípios pagar tão caro por um sapato ou simplesmente que você não tem o
dinheiro. Mas diga o motivo sincero. Você não pode sair de lá e cinco minutos
depois comprar uma bolsa de 500 reais para você.
Veja –
Como convencer
pais que trabalharam o dia todo, brigaram com o chefe, passam por uma crise no
casamento a chegar em casa e ter ânimo de argumentar com as crianças?
Lidia – Educação é trabalho. Se você tem um relatório para entregar para
seu chefe no dia seguinte, você vai virar a noite, mas vai escrevê-lo. Se está
com TPM mas tem uma reunião decisiva, você toma um comprimido e vai. Por que
muitas pessoas não têm esse empenho quando se trata de educar suas crianças? É o
que chamamos de "investimento parental". Tem de investir, tem de fazer um
esforço, tem de dar a real importância a esse tempo com os filhos. Mas, se você
não conseguir um dia ou outro, também não é o fim do mundo.
Veja –
E se os pais
nunca fizeram isso? É possível mudar o comportamento depois de muitos anos?
Lidia – Há uma técnica que chamamos de quadrinho de recompensas, em que
você foca nas coisas positivas feitas pela criança. É muito eficiente se usada
depois dos 4 anos. Liste todas as tarefas que você considera positivas. Pode
colocar até arrumar a cama, escovar os dentes, comer tudo. Quando a criança
fizer isso, ela mesma vai até o quadrinho e se dá uma estrela. Quando um pai
permissivo resolve mudar de atitude, a criança piora o comportamento no primeiro
momento. Ela vai tentar obter a atenção com as armas que usava antes. Se fazia
birra, vai fazer ainda mais. Então, tem-se de agüentar esse começo.
Veja –
Existe um
caminho de como fazer de seu filho um adulto feliz?
Lidia – Fortalecer a auto-estima. É surpreendente, mas a maioria dos pais
tem dificuldade de elogiar seu filhos. Eles temem parecer falsos. Mas é preciso
insistir até conseguir. Se dois irmãos estão brincando e eles costumam brigar,
em vez de dizer "Até que enfim, vocês estão brincando", diga: "Que bom, vocês
estão brincando juntos". Sem sarcasmo, sem provocação. Os pais devem sempre
mostrar que o amor deles pelos filhos é incondicional. Aquela coisa de dizer:
"Ah, se você não comer tudo não vou mais gostar de você" mina a auto-estima da
criança de um jeito quase irreversível. A criança tem de contar com o seu amor,
mesmo que ela faça algo errado.
Veja –
Como fazer com
que seu filho confie em você?
Lidia – Ouça, não julgue. Não avalie seu filho pelos seus padrões. Se sua
filha vier lhe contar que "ficou" com dois meninos numa festa, não faça
escândalo. O mundo mudou. Hoje isso é plenamente aceitável. Se você brigar, ela
nunca mais lhe contará nada. Mas, se ela contar que transou com dois, aí é outra
coisa. Seu papel é explicar que isso não é aceitável. Exponha as causas e as
conseqüências de tal atitude, mas sem puni-la. Ensine desde a tenra idade seu
filho a falar sobre si próprio.
Veja –
O que é
fundamental na relação entre pais e filhos?
Lidia – Afeto, envolvimento, participação, saber quem são os amigos. É
preciso monitorar. Não é ligar para o celular da criança ou adolescente a cada
dez minutos. É mostrar que você se importa, que participa da vida deles, mesmo
que, num primeiro momento, isso pareça intromissão. Não tenha dúvida: no futuro,
eles agradecerão.
Cartas
9 de julho de 2004
Lidia
Weber
Com que
presente VEJA nos brindou na edição 1 856! Terminei a leitura da entrevista
(Amarelas, 2 de junho) com lágrimas de emoção. É chocante: a tolerância
mascarando o pouco afeto. Acordem, papais e mamães! Que as palavras dessa
estudiosa lhes sirvam de estímulo! Aprendamos a fazer muitos elogios aos nossos
filhos e eliminemos de vez todo o resquício de sarcasmo. Não me lembro de ter
lido algo tão deliciosamente tocante e bem exemplificado nestes 27 anos como
leitora desta formidável revista: anseio por mais "Dra. Lidia Weber".
Maria Teresa Priante Schuber
Belém, PA
As idéias
de Lidia Weber são tão profundas e verdadeiras que deveriam ser divulgadas com
maior afinco. Nossa sociedade só teria a ganhar e nossos filhos naturalmente
teriam melhores chances de se tornar vencedores no mais amplo e irrestrito
sentido da palavra. Concordo plenamente que só o amor, o afeto, o envolvimento,
a participação e o companheirismo podem criar laços verdadeiros entre pais e
filhos.
Sandra Malerbi
São Paulo, SP
A
entrevista de Lidia Weber lembrou-me do meu posicionamento favorável à palmada
como expediente para a educação de filhos. Também já me servi do castigo. A
partir de agora serei contra a palmada, por entender tratar-se de um instrumento
desencadeador da violência. O castigo, no entanto, é um mecanismo útil, por ser
capaz de promover, durante seu cumprimento, a reflexão. Os pais que o utilizam
expressam controle e paciência, numa evidente demonstração de sua autoridade de
pai e educador. Os filhos aprendem o que é tolerância.
Antonio Joaquim Gomes Neto
Goiânia, GO
Todos os
pais deveriam ler essa entrevista. Quatro lições dela são tiradas: 1) Dar amor,
carinho e afeto às crianças, sempre motivando-as para aumentar a auto-estima; 2)
Saber ouvi-las; 3) Dar apenas castigos que os pais possam fazer cumprir; 4) Ser
amigo dos amigos dos filhos.
Claudius Régis Maia de Sousa
Fortaleza, CE

CORREÇÕES: A psicóloga Lidia Weber (Amarelas, 2 de junho) tem dois filhos – Erik,
de 10 anos, e Tatiana, de 12 –, e não três, como foi publicado.
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