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Gazeta do povo - 01 de agosto de 2004
EDUCAÇÃO
– Ignorar
birra, conversar ou corrigir atitudes são recomendações para impor limites
Se a sociedade condena a agressão física entre duas pessoas, como é possível tolerar um pai ou uma mãe que bate no próprio filho? É com esse dilema moral que a psicóloga Lídia Weber começa a derrubar a tese dos que defendem o uso do castigo físico na educação das crianças. Professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), ela considera inaceitável a palmada e ensina algumas técnicas para melhorar a relação entre pais e filhos. “Tem que ter muita paciência”, diz ela, que é mãe de um casal de 10 e 12 anos. Felizmente, segundo ela, o método mais comum de castigo está perdendo, aos poucos, a força. “Estamos em pleno processo de evolução”.
Lídia Weber – Hoje, temos argumentos científicos, éticos e morais para dizer que não se deve usar a palmada. A ciência já comprovou que ela não funciona a longo prazo. É comprovado que a palmada só serve para reforçar o comportamento do pai e não conserta o do filho. Quando a criança faz birra e você dá um tapa, ela sente dor. Como obviamente a dor é incompatível com qualquer outra coisa, ela pára de fazer aquilo que o pai considerou errado. Só que isso predispõe os pais a usarem mais vezes a palmada. Eles acabam ensinando que o uso do poder e da violência é eficiente para resolver problemas e ensinam também que adultos não têm controle. – Mas é difícil manter a calma diante de uma criança que faz birra, se joga no chão e faz aquelas cenas... – A criança não nasce birrenta. Isso tem que ficar claro. Nós é que ensinamos o comportamento que ela vai ter. É tudo uma questão de “manejo”, costumo brincar. A criança nos testa sempre. Você está num mercado e ela quer um chocolate. Você diz não, ela começa a berrar e todo mundo olha. Você fica inseguro e resolve fazer a vontade dela. Ela acaba de aprender que para conseguir uma coisa tem que se portar daquela maneira. Se isso for sistemático é o nascimento da criança birrenta e sem limite. Não pode ceder nunca. Se ela faz um escândalo na loja, a única alternativa é pegá-la e levar para casa. Se a criança está em casa com birra, o melhor a fazer é ignorar. Depois de duas, três vezes que você fizer isso, ela vai aprender. – Qual comportamento é mais eficiente: tentar o diálogo ou ignorar? – Depende da idade. Até 3 anos ignorar é muito bom. Mas nem tudo pode ser ignorado. Se o seu filho for lá e bater num amiguinho, por exemplo, isso nunca deve ser ignorado. Claro, o pai não vai dar um sermão numa criança com menos de 3 anos, mas já pode direcionar o comportamento com o diálogo. Se ela mexeu em um livro, você diz que aquilo não é dela, que não pode rasgar. Não adianta nada dar um tapa porque a motivação da criança nessa idade é tão forte que ela vai mexer de novo quando você estiver longe. É mais fácil deixar alguns livros embaixo para que a criança possa mexer. – A criança que revida com tapas e mordidas ao ser contrariada é um sinal de que está apanhando em excesso? – É um sintoma de que ela esta aprendendo o modelo. Claro que tem fases do desenvolvimento que a criança vai morder. Mas pense: como ensinar o seu filho a não dar um tapa em alguém dando-lhe um tapa? Não tem sentido. A criança aprende em grande parte por modelos. A gente tem que cuidar o que faz. Lógico que tem outras influências. Ela vai à escola e pode ver alguém batendo e achar que isso funciona. Mas se em casa isso não acontecer, provavelmente ela não vai fazer. – Em uma pesquisa interativa do Fantástico, mais de 80% dos pais responderam que já recorreram ao castigo físico. O que achou do resultado da pesquisa? – Acho coerente com todo o resto do mundo. A maioria ainda acredita que a palmada funciona. Fizemos uma pesquisa com mais de 500 crianças de escolas públicas e particulares e 88% disseram que já apanhou pelo menos uma vez. Mas os tempos mudam. Não estamos mais nos anos 50, onde o pai mandava e todos ficavam quietos. Hoje temos um modelo igualitário na família. Todos têm o mesmo valor – pai, mãe, filhos – e isso é muito recente na história da humanidade. Por isso não acredito a palmada vá acabar em pouco tempo. Estamos em pleno processo de evolução. – Qual punição é aceitável? – Você pode definir um lugar da casa onde a criança vai ficar sentada, olhando para a parede, quando fizer algo errado. Você estipula um minuto por idade e a deixa ela lá, parada. Isso funciona muito com criança birrenta. Outra técnica é a punição por custos. Ela faz uma coisa que já sabia que não podia fazer. Pintou a parede, por exemplo. Ela vai pegar o baldinho e limpar a parede. Outra é a retirada de coisas positivas como ficar sem ver televisão. Mas o ideal é que você seja consistente e coerente na punição que será aplicada. – Quando os pais sabem que estão passando do limite? – É preciso ter sempre uma noção se o filho é feliz ou não. Se ele tem manifestações carinhosas com você. O que tem que fazer é contingenciar, a chamada regra da vovó. Se não almoçar, você não vai ter sobremesa. A criança vai chorar, berrar, e aí você a deixa chorar. Isso é uma contingência, não uma ameaça. Você está dando opções para que ela escolha. A responsabilidade é dela. É assim que se ensina uma criança. Serviço: o Departamento de Psicologia da UFPR realiza curso gratuito para pais que tem dificuldades em educar os filhos sem apelar para as palmadas. Os interessados podem ligar para os telefones 310-2669 ou 310-2625 e se cadastrar. O curso ocorre na sede da UFPR na Praça Santos Andrade, em Curitiba. Sérgio Luís de Deus
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Universidade Federal do Paraná Departamento de Psicologia - Profª Drª Lidia Natalia Dobrianskyj Weber Praça Santos Andrade, 50 - 1º andar Fone: (41) 310-2669 Fax: (41) 310-2625 - 80060-000 Curitiba-PR
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