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Abrir a casa e o coração para uma criança abandonada é um gesto nobre. Porém, ele ainda é muito raro no Brasil. Segundo pesquisas do IBGE, existem 200 mil crianças brasileiras esperando por uma família. Isso ocorre não somente por causa das situações de carência em que elas se encontram, como também por causa do comportamento de quem deseja adotar. Muitas pessoas ficam na fila de espera durante anos, só porque não encontram crianças com as características que desejam. Além disso, há também os tabus e os medos que cercam os pais quanto à educação e a convivência com os novos herdeiros. A psicóloga Lidia Weber, autora de diversos livros sobre o assunto e coordenadora do Núcleo de Análise do Comportamento do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Paraná, fala sobre as principais características da adoção no Brasil e o que é preciso fazer para resolver a situação das crianças que aguardam uma nova chance dentro de instituições.

Como se pode definir a adoção no Brasil?

Há alguns anos realizei uma pesquisa para minha tese de doutorado na USP, com quatrocentas pessoas envolvidas com adoção. Eram pais adotivos, filhos adotivos e filhos biológicos com irmãos adotados. Recrutei essas pessoas em 105 cidades de dezessete estados brasileiros e tive resultados muito interessantes. A maioria dos adotantes é casada, branca, com escolaridade de segundo grau ou curso superior, renda familiar bastante superior à população em geral. Grande parte deles tem filhos biológicos e deseja adotar mais de uma criança. São poucas as adoções inter-raciais. Mais de 70% delas é feita com crianças brancas, contra 23,8% de pardas, 5,3% de negras e 0,4% de amarelas. A motivação da maioria dos pais é a infertilidade ou esterilidade, mas muita gente adota por motivos altruístas. Vale notar que, entre as pessoas de menor poder aquisitivo, é maior a ocorrência de adoção por esses motivos. Quem não possui filhos biológicos costuma ser mais exigente em relação às características da criança adotada, mas isso não determina maior ou menor dificuldade no relacionamento afetivo. Em ambos os casos, as dificuldades encontradas pelos pais são as mesmas. Quanto à saúde, 98% dos pais buscam crianças saudáveis ou com pequenos problemas de saúde. E há uma leve preferência por meninas.

As adoções estão sendo feitas de forma legal?

Há uma divisão entre as adoções legais e as informais. A maioria das pessoas adota legalmente, mas percebemos que o nível de escolaridade influencia o tipo de adoção. Quanto maior a renda familiar, maior a probabilidade de adotar legalmente. Ainda assim, 48% dos pais o fazem informalmente, inclusive alguns deles contam com o intermédio de profissionais de hospitais e instituições onde as crianças foram deixadas por suas mães biológicas. Eles registram a criança como filho próprio ou a criam sem alterar a certidão de nascimento. Isso acontece porque eles têm uma imagem negativa acerca dos serviços prestados pelos Juizados da Infância e da Juventude. Dizem que é burocrático, moroso, rigoroso demais. O interessante é que 76% dos pais que adotaram legalmente possuem a mesma opinião.

Quais os maiores medos dos pais adotivos?

São vários. Se for uma adoção informal ou ilegal, eles têm medo de a criança não ficar com eles. Mesmo quando a adoção é legal, eles temem, por desconhecimento, que a família de origem possa querer a criança de volta ou aparecer e a criança gostar mais dela. Sentem, também, medo de não serem amados, de a criança se revoltar com a sua situação, de não serem vistos como uma “família verdadeira” - e isso ocorre com muita freqüência. Muitos não se sentem confortáveis em adotar uma criança muito diferente fisicamente ou receiam não amá-la por ela não ter o seu sangue. Todos esses medos são relatados pelos pais com bastante freqüência, mas a maioria deles não tem fundamento. O que eles mais temem, geralmente não ocorre.

Na realidade, quais os problemas mais comumente enfrentados pelos pais e filhos após a adoção?

Em primeiro lugar, é a revelação tardia ou inadequada de que o filho é adotado, por parte de terceiros. Acho importante revelar desde cedo, mesmo que a criança seja um bebezinho, e falar sobre isso sempre. Não basta falar e não tocar mais no assunto. Em segundo lugar, existe o fato de alguns filhos não saberem absolutamente nada da história de sua origem, e isso pode gerar desconforto, se os pais não se abrirem ao diálogo com eles. Outra situação é a discriminação. Muitas pessoas fazem comentários diretos ou velados, tanto aos pais quanto aos filhos. Por exemplo, quando se diz a uma mãe adotiva: “Puxa, você é como se fosse uma mãe de verdade”. Ou à criança, na escola: “Você nem é filho dos seus pais, é adotado”. As escolas, muitas vezes, não estão preparadas para falar naturalmente de adoção.

E os filhos adotivos, como costumam se comportar após a adoção?

A maioria se mostra feliz e ama a família adotiva, sentem os pais como se fossem os seus verdadeiros. Eles ficam confortáveis com a infertilidade como motivação, pois se sentem muito desejados. Grande parte deles não tem nenhuma informação sobre sua história de origem. Alguns têm mágoa disso, enquanto outros não têm interesse ou se mostram felizes por terem sido adotados. Geralmente os pais não têm dificuldades com a educação dessas crianças, nem com o relacionamento afetivo. São poucas as queixas quanto a isso. Os maiores problemas ocorrem, na verdade, com a revelação tardia ou inadequada da adoção. Pais que adotaram crianças maiores de dois anos são os que mais se queixam do problema. Por mais que as pessoas achem que uma criança adotada será problemática, a verdade é que dificilmente elas terão problemas com a escola, a educação e o relacionamento afetivo.

Hoje é muito mais fácil adotar uma criança, pois a lei permite que qualquer pessoa acima de 18 anos, de qualquer classe social, estado civil ou preferência sexual pode se candidatar – desde que seja pelo menos dezesseis anos mais velha do que a criança. Quanto tempo leva o processo de adoção e como os pais lidam com isso?

É impossível responder quanto ao tempo. Sei de pessoas que adotaram legalmente em dois meses e outras que estão na fila há quatro anos. Depende da comarca, do juiz, da equipe de adoção, das preferências dos candidatos. As equipes investigam as famílias, mas raramente preparam os adotantes, o que impede que muitos deles ampliem seus horizontes no que diz respeito à sua escolha. Eles precisam saber lidar com discriminações sociais, mudança do desejo, a culpa ou o luto pelo filho biológico que não tiveram, as diferenças, as perguntas dos outros, a capacidade de empatia e altruísmo, a compreensão de que uma relação de filiação precisa de cuidado contínuo.

Em nosso país, é comum percebermos pais que ficam anos a fio nas filas de adoção, por quererem crianças com características muito específicas, como idade, cor dos olhos, dos cabelos e da pele. Existe muito preconceito dos brasileiros na hora da adoção?

Sim, as pessoas têm até medo de que a marginalidade passe geneticamente, querem saber se a criança não é filha de um bandido ou de uma prostituta. Adoções inter-raciais são pouco freqüentes, logo no Brasil, o país mais miscigenado do mundo. Infelizmente há muitas pessoas que acreditam que a adoção é algo de “segunda classe”. Quando uma pessoa chega à idéia de uma adoção, pensa logo em um bebê recém-nascido, bonito, saudável e parecido com ela. De início, pareceria um desejo natural, mas é preciso pensar que a adoção não pode simplesmente imitar a biologia. Se houvesse aqui uma preparação mais adequada dos pais, com cursos e vivências, como acontece em países desenvolvidos, essa realidade mudaria. Os adotantes poderiam compreender que esse desejo por um bebê perfeito é bobagem, que o amor é construído no dia-a-dia e não depende de laços de sangue.

Os pais precisam contar aos filhos que eles são adotados? Quando?

Toda criança adotada deve saber que não é filha biológica. Isso as famílias estão fazendo quase sempre. Mesmo assim, os filhos reclamam que os pais não querem conversar sobre isso, nem sobre sua história de origem. Acredito que não haja uma ocasião específica para contar. Ela deve estar sempre presente nas conversas da família, desde cedo, mas tratada como algo positivo, não como um estigma. Toda história de adoção está necessariamente ligada a uma situação de abandono, e isso não pode ser esquecido. No entanto, se os filhos não desejam conversar sobre o assunto, os pais adotivos devem respeitá-los.

Existem muitas diferenças entre a adoção brasileira e a que é feita em outros países?

Sim, e elas são gritantes. Pessoas de outros países falam de adoção há mais de quarenta anos, enquanto nós começamos a discutir melhor esse tema há cerca de uma década. Essas pessoas passaram por muitas guerras e entenderam a necessidade de uma criança ter uma família. Para nós, a miséria chega a ser banalizada. Os estrangeiros também gostariam de ter bebês parecidos com eles, mas eles inexistem em seus próprios países. Outro fator é a nossa lei, que considera a adoção internacional como excepcional, ou seja, somente pode ir para o exterior uma criança que não conseguir ser adotada no Brasil. Enquanto os brasileiros ficam esperando os bebês ou fazem adoções ilegais para consegui-los, os estrangeiros entendem que seus desejos devem ser moldados de acordo com a necessidade da criança. Por isso, adotam crianças negras, maiores, com necessidades especiais e até grupos de irmãos.

O que falta, na sua opinião, para a adoção deixar de ser um tabu aqui no Brasil?

A questão da adoção não pode ser analisada sozinha. Ela está ligada ao abandono e à institucionalização. As crianças ficam anos internadas. Pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, um adolescente infrator pode ficar, no máximo, três anos internado. Enquanto isso, crianças que nada fizeram às vezes passam dezoito anos em uma instituição. Existe pouco empenho em criar uma rede de apoio para famílias em situações de risco, que apresentem casos de maus tratos, violência e negligência, entre outros. Então, tais crianças ficam em um limbo. Ou seja, não voltam para sua família de origem e não podem ser adotadas legalmente, pois os pais biológicos não foram destituídos do poder familiar. Existe um projeto em tramitação, de uma Lei Nacional de Adoção. Um dos pontos desse projeto trata de definir um prazo mínimo para resolver a situação de uma criança. Esse prazo seria de seis meses. Para alguns é pouco tempo, mas para uma criança abandonada em uma instituição, é um tempo enorme. Por fim, é preciso mudar a burocracia no que tange à destituição do pátrio poder dessas crianças. Não se ajuda a família de origem, nem se decide liberar a criança para adoção. Quando ela fica mais velha, o sistema Judiciário e o Ministério Público afirmam que são somente os candidatos a adotar é que são preconceituosos.

 

 

Universidade Federal do Paraná

Departamento de Psicologia - Profª Drª Lidia Natalia Dobrianskyj Weber

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