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ALUNOS E PROFESSORES: ADVERSÁRIOS OU ALIADOS? Lidia Natalia Dobrianskyj Weber
Publicado no Jornal do Conselho Regional de Psicologia da 8ª Região – Paraná, em junho de 1986.
O senso comum nos mostra que o relacionamento professor-aluno apresenta diversas fases ao longo do caminho de um indivíduo. Enfocando este ponto sob um aspecto extremamente geral, este relacionamento tende a ser muito afetivo nos primeiros anos de convívio escolar (nos maternais e jardins de infância, onde as crianças chamam sua professora de "tia", levam-lhe presentes e tarefas e conceitos são aprendidos de maneira agradável e lúdica). Porém, apresenta um "esfriamento" com o passar dos anos, podendo terminar em indiferença ou mesmo em oposição quando chega-se à universidade. A desvalorização do lado afetivo e a introdução de maior formalidade no relacionamento ocorre tanto com professores como com alunos universitários. Os professores parecem muito preocupados em mostrar erudição e competência em sua disciplina, e acabam relegando o tão necessário relacionamento humano que deve permear a convivência entre "mestres e aprendizes". Também os estudantes, na maioria das vezes, demonstram que a maior responsabilidade para o "sucesso" das aulas deve ficar com o professor. Entende-se como "sucesso" o fato dos alunos apreenderem o conteúdo do que está sendo estudado em um clima de harmonia entre eles e o professor. Não existe culpa de nenhuma das partes isoladamente. Não que a competência de um profissional não seja importante. Ela é, e muito. Entretanto, uma convivência agradável serve como mediador para o processo de aprendizagem. O que parece ocorrer, é que tanto alunos como professores colocam-se numa posição auto-suficiente, de forma que cada qual isenta-se dessa responsabilidade, tornando inviável a reflexão e a procura de soluções conjuntas para obter uma convivência verdadeiramente satisfatória. Como bem coloca Skinner (1972), nós devemos tomar cuidado com dois ídolos especiais da escola que afetam os que desejam melhorar o ensino. O primeiro é o ídolo do Bom Professor: trata-se da crença de que o quê um bom professor pode fazer, qualquer outro também pode. Alguns professores são, é claro, particularmente eficazes. São pessoas naturalmente interessantes e que tornam as coisas atraentes para os alunos. O segundo ídolo é o do Bom Aluno: é a crença segundo a qual o quê um bom aluno pode aprender, qualquer um pode. Porque têm superior habilidade ou porque tenham sido expostos anteriormente a ambientes mais favoráveis, alguns estudantes aprendem sem serem ensinados. Na verdade, nossa experiência mostra que existe muita idealização de ambos os lados. Os alunos desejam um professor competente (em didática e em conhecimento), motivador e que tenha real interesse por sua profissão, organizado, eficiente, seguro, extrovertido, simpático, dinâmico, espirituoso, que não se coloque num "pedestal", que não seja autoritário, etc. Mais ou menos como um show de variedades! Por outro lado, os professores querem que os alunos sejam interessados, motivados, participativos, criativos, disciplinados, críticos, inteligentes (que entendam a explicação na primeira vez ou, preferencialmente, que entendam sem explicação...), bem humorados, amigos, etc. Algo assim como os superdotados que aprenderiam mesmo sem o professor ou apesar do professor... Sabe-se que nem todos os professores e nem todos os alunos são tão perfeitos. E nem é preciso que sejam necessariamente assim para que o objetivo final do ensino-aprendizagem possa ser alcançado. O professor não precisa ser inevitavelmente um expert em oratória nem um humorista em potencial para que transmita os conhecimentos de maneira eficaz e, tampouco o aluno tem por obrigação formular perguntas e comentários brilhantes a cada minuto para mostrar sua compreensão sobre o significado dos assuntos estudados. O mais importante, de ambos os lados, é a habilidade em criticar a realidade, incluindo a sua própria realidade, e a capacidade de produzir conhecimentos novos. Estando conscientes que essa idealização nos remete à expectativas exageradas a respeito do outro, devemos pensar sobre quem detém a maior responsabilidade para o êxito do ensino. Há aqueles que dizem que a escola e os professores estão a serviço dos alunos e que estes são a razão de ser e a finalidade da escola (Hersch, 1982). Essa posição delega um papel exclusivo aos professores, deixando os alunos como desfrutadores passivos desses "serviços". A meu ver, o que existe é um conjunto indissociável: uma Universidade sem alunos seria inútil, assim como uma Universidade sem professores seria improdutiva. Tomando emprestado os termos da química, pode-se dizer que este conjunto deve ser algo mais do que uma mistura (onde cada qual mantém suas propriedades). Deve ser uma síntese (onde ocorre a formação de um novo elemento com características próprias); algo mais do que uma simples soma das partes. Os alunos precisam ser algo além de meros espectadores, da mesma forma que os professores não devem ser apenas conferencistas que reproduzem os textos dos livros. O comportamentos do aluno e do professor em sala de aula é produzido por inúmeras contingências complexas e esse comportamento será tão mais agradável e eficaz quanto maior for o compromisso das duas partes nesta tarefa. O pensador Julián Marias (1981) apresenta seu ponto de vista de modo bastante claro e objetivo: A Universidade consiste na convivência dos professores com os estudantes. A única coisa que justifica a Universidade é a existência de professores que pensam na frente dos alunos, que pensam com eles, para eles, em diálogo com eles. Isto é, são capazes de produzir o contágio do pensamento. Nem mais nem menos. Porque o mais... Quem não escreveu uns livros ou uns ensaios, nos quais explicou talvez melhor, sem anacolutos, com frases que terminam, até com notas de rodapé e bibliografia, o pouco que sabe? Bastaria lê-los. Mas não basta. Não basta porque o estímulo que significa a presença do professor não é transmitida pelo livro. Existe algo que é o pensamento em estado nascente, como muitos corpos químicos que são ativos quando estão em estado nascente. pois existe o pensamento em estado nascente, o pensamento se fazendo, surgindo diante do estudante, com ele, em diálogo com ele. Esta é a única justificativa do professor. Se não existe isso, ele está sobrando. Uma outra questão que sempre vem à tona é a relação de poder na sala de aula. Professores conscientes sabem que o autoritarismo gratuito não produz resultados desejados, e a época de "manum ferrular subducuere" (dar a mão à palmatória) faz parte da história passada. No entanto, ainda existem entre nós muitos métodos que são substitutos para a palmatória, os quais são igualmente prejudiciais... Existem também aqueles professores que na ânsia de mostrarem-se "democráticos" e conquistarem assim a simpatia dos alunos, acabam mascarando o seu poder, talvez inspirados nas lições que Jean-Jacques Rousseau escreveu no século XVIII sobre como deveria ser o tratamento do aluno: "Deixe o aluno acreditar que está sempre no controle, embora seja sempre você (o professor) quem realmente controla. Não há subjugação tão perfeita como a que mantém a aparência da liberdade, pois desse como captura-se a própria volição". Parece claro que nenhuma das duas posições apresenta suficiente maturidade e honestidade. Nós estamos falando principalmente de um ambiente universitário, e mais especificamente de Cursos de Psicologia, onde existe premência em colocar todas as cartas sobre a mesa. jogar aberto é, por um lado, entender que o despotismo não traz resultados favoráveis e, por outro lado, saber que a liberdade não é aleatória. Não significa fazer qualquer coisa em qualquer tempo e lugar. Ela precisa estar associada a um método, a uma estrutura organizada; a tão desejada democracia não configura-se em uma confusão no vazio. Liberdade é quando existe respeito para com as regras do jogo (as quais devem ser aceitas por consenso), inclusive sobre o direito de modificá-las. Tanto professores como alunos deveriam ter consciência de que não é necessário que sua convivência seja um combate em um campo de batalhas. Antes de tudo, deve ser uma busca de conhecimento, de cultura, de crítica e de investigação científica. Se professores e alunos são dois pólos opostos, devem travar uma luta dialética, na qual se procure o acordo através da conciliação de contradições. Provavelmente, ao recordar o relacionamento entre professores e alunos dos "jardins de infância" seja possível resgatar a sua idéia básica. Talvez em um ambiente universitário também seja preciso um pouco mais de amizade. Eu disse amizade? Errei. Quis dizer afetividade. Com um pouco de afeto pode-se conseguir a cumplicidade necessária para permanecer do mesmo lado nesta luta, e assim, poder realmente fazer uma reflexão crítica acerca dos temas estudados.
Referências bibliográficas: Hersch, J. (1982). Defeitos da pedagogia. O Estado de São Paulo - Suplemento Cultura, 100, p. 5. Marias, J. (1981). A missão da universidade. O Estado de São Paulo – Suplemento Cultura, 56, 2-5. Rousseau, J.J. (1957). Émile ou de l’éducation. Paris: Éditions Garniers Frères. Skinner, B.F. (1972). Tecnologia do ensino. São Paulo: EPU.
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